Domingo, 28 de Junho de 2009


Navegar

Eu não tenho
canoa para navegar,
mas tenho jangadas
que me levam para o mar

de poesia.

Não tenho a proa
para o vento levar,
mas tenho a magia do livro
para me fazer voar.

Maria Maria

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009


Alimentos

Alguns alimentam sertões:

cascalhos,
brotos,
vagens,
navios de pedra,
galhos – meninos,
xiquexiques.

Eu,
amante da poesia,
alimento folhas,
fios,
linhas,
tinta,
fantasia.

Maria Maria

Foto: web

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009


Poema dedicado ao
Dia dos Namorados


O exercício do amor

Acordar com gosto de sol, diariamente;
lavar a alma com água de lua;
hidratar os lábios com doses generosas de beijos;
dizer Bom-dia a um passarinho azul;
roubar um galho do vento;
(ele o traz)

Sorrir com o leite, simbolizado no lençol;
acariciar o ventre inebriado de flor;
fazer porções mágicas com pó de saudade;
cobrir o corpo com pétalas de noite.

Repetir a cada instante:

“Amo-te até o próximo século.”

Maria Maria

Foto: web

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

O poeta Oreny Júnior fez sua
leitura do poema Digestão.

abaporu tupi or not tupi tarsiwald tarsila
amora amorável d'amaral drummond andrade minas
itabira bira mira alvo transparente branco blanco
octávio paz a espécie poética que lavrae ara a palavra
ao encontro da alma literária de si mesmo de todos nós
antropofagia arrote o egoísmo inumano.

Oreny Júnior

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009


Poema dedicado a Oswald Andrade
e ao movimento antropofágico


Digestão


Comi:
tapioca,
paçoca,
mandioca
(com chá de manjericão)
Arrotei um índio,
quando fiz
a digestão.

Maria Maria

Domingo, 31 de Maio de 2009

Completando o poema de Moacy Cirne,
o Canto da Boca disse:


tínuo, partilhado, penetrado, tornado, trito, tente, tido, templado, meçado, batente, binado, meta, movido, pacto, pleto, primido, prometido, mungado. Um poema com:

www.cantodaboca.blogspot.com

Sobre o poema Primeiros Momentos,
Moacy Cirne escreve outro poema.


Um poema com sustança
Um poema com susto
Um poema com
Um poema
Um poe
Um po
Um
Um po
Um poe
Um poema
Um poema com:

Sábado, 30 de Maio de 2009


Primeiros momentos
(nada inéditos)


Todos os dias
bebo um pouco
das nove horas da manhã.

É o meu primeiro hálito
respirado com cheiro de dia
já adolescente.

É o meu primeiro
beijo no tempo
que começa tarde.

E o que vem
são meros plurais,
nada inéditos.

E, seguindo a rota do desconhecido,
vejo-me como a pena
de um pássaro azul.

E, como se fosse eterna,
a tela se repete
como o círculo de fogo no tempo.

Maria Maria

Imagem tirada da net

Domingo, 24 de Maio de 2009


Renda

Mamãe,
sentada no tamborete
tecia com alfinete
um rolo de bico.

Os bilros,
deslizando pelos dedos,
trançavam um filete
de fuxico.

Mamãe,
sentada no tamborete
ainda com alfinete, dizia:

“Menina, pega uma caneta,
senta na maleta
e vá escrever poesia”.

Maria Maria

Terça-feira, 12 de Maio de 2009


Sobre o tempo no Seridó

Esse rio de efemérides
desemboca nesses tempos
de invernos incomuns.
Nunca vimos nossos espaços mofados,
esse cheiro pesado de guardados,
o vento seco desfiando umidade
como quem desfia um colar de schellita.

Pouco vista é a paisagem verde-bandeira
com guinés, correndo pela caatinga.
E, enfeitando essa imagem,
garças lindamente brancas.
Muito menos se via a água confusa
deitando-se sobre o chão permeável
do Seridó.

O olho da ancestralidade
outrora via um sertão
se metamorfoseando
num imenso mar de águas doces.
E hoje,
eu vejo minha alma
inundada de incertezas.

Maria Maria

Foto: brasilpassaros.blogspot.com

Domingo, 19 de Abril de 2009


(Des)oriente

Nada me retoma
do tempo das fogueiras:
tiro a roupa, o fogo me espera.

Cada certeza e cada afago
é uma espiã
desvairada.

Tenho a dúvida
como inconsciência
do que sou.

Cada espera
é uma esfera
de luzes e sombras.

Não entendo mais de bússolas
estou em estado
de (des)oriente.

Maria Maria

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009


Gosto da poesia e música
de Oswaldo Montenegro. Segue,
então, um dos poemas- canções
que eu entendo como lírico-erótico.

Virgem (Oswaldo Montenegro/Mongol)


Ela era virgem
E o vento alisava seus pelos pr'ela suspirar
E era um namoro selvagem de sexo de ventania
E quando o vento não vinha
Ela mesmo corria pra ventar
Ela era virgem
E o mar só lambia suas coxas pr'ela se molhar
E ela era só maresia em dia de tempestade
Ela deixava a cidade e abria suas pernas para o mar
E roçava os cães com a pele cálida
Pássaros na mão, cobras no ar
E amava tigres e leões, gatos nos porões
E à noite dormia encharcada

Sábado, 11 de Abril de 2009


Chuva de abril no Seridó

Dó ré
mi
fá sol

si
bila a chuva
sem sol.
E a chuva
toc, toc...
vai compondo
sinfonias nas teclas
do meu telhado
nesta noite em que
a Vésper fa
la mansamente à lua
que a maré tem dó,
de mim.

Maria Maria

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009


CANÇÃO DO TEMPO DOCE

Às duas da tarde
o quebra-queixo
é vendido pelo doceiro,
e o tempo doce de coco,
o tempo ameno de amor
vai se desmanchando
em guloseimas e babas
que escorrem pelo canto
mais escondido,
da boca.

Maria Maria

Foto:Romance in red" de Alfred Gockel

Quarta-feira, 25 de Março de 2009


Flor da craibeira

Nesse corpo-menina
- de longa via passada -,
de certos enleios de vida,
de fomes na madrugada,
guarda no sempre uma flor
de craibeira copada.

Maria Maria

Sábado, 21 de Março de 2009


Desassossego

O instante
às vezes me atormenta:

toca-me o ombro,
desembala meu sono,
acorda o parceiro
que dorme,
mexe na minha loucura,
rouba-me a solidão,
tira-me, escondido,
todos os meus sentidos.

O instante se afoga
nos fonemas da palavra.

Terça-feira, 17 de Março de 2009


Redemoinho

A noite silenciosa dos meus seios
chega em desalinho:
lenta,
opaca,
tímida.

Solto o verbo na escuridão
e ouço:
passos,
ventania,
redemoinho.

Maria Maria

Quinta-feira, 12 de Março de 2009














Cantiga para a noite nos Apertados

Na areia de um rio inocente
meus pés-meninos caminhavam.
A pele sentia o frio indecente
e o assobio do vento na madrugada.

Era tímida a noite reluzente
quando a lua refletia na alvorada
e o canto da ave persistente
ecoava nos voos da passarada.

Vi o Pe. Anchieta, pensei sozinha de repente,
Logo que um cipó descia na enxurrada,
uma folha, folhinha, semente
e uma folha no galho desgarrada.

O poeta, a poesia sente!
Disse-me o canto rouco do azulão
e na areia daquele rio inocente
ouvi as pegadas poéticas do meu coração.

A noite em minutos era displicente
e o sol me saudava com uma borboleta.
Deitou-se a última estrela cadente
e a poesia do cajado de Anchieta.

Alisei com os pés a areia-gente
e tentei aprontar a minha idéia.
A poesia voava fluentemente
como a flecha de Aquiles numa epopéia.

Não era a Grécia de Helena adolescente
nem as terras dos pássaros enamorados
nem as pedras, caminhos das serpentes.
Era o rio e a areia dos Apertados.

Maria Maria

Segunda-feira, 9 de Março de 2009


Tercetos

Toma meu seio, minha voz,
minha mina de amor,
meu coração, minha flor.

Meu corpo, agora,
não mais entende,
de solidão.

Maria Maria

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009


Serpente dos Apertados

O rio dos Apertados
serpenteia o seu nome
e desce escamoso
sobre os rochedos.

E as claras em neve
desembocam nuas
sob a sombra tímida
dos arvoredos.

Maria Maria

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009


Banho de rio nas águas dos Apertados

Banho de rio sobre as pedras.
Nus, você e eu.

E os peixnhos brincando
de infância.

Somos deuses sem nomes
eternizados naquelas rochas.

Maria Maria